Noites Púrpuras

abril 22, 2008

 

O título desse post se apropria da versão mexicana para My Blueberry Nights, novo filme de Wong Kar Wai, que por aqui está sendo chamado de Um Beijo Roubado. O filme é a primeira incursão do cineasta chinês na América e, na minha opinião, muito bem sucedida. A história trata das perdições provocadas pelo amor. Na verdade, fala de como nos deixamos perder por amar demais. Há quem critique Norah Jones (linda), excessos de clichês (muito neon, muito papo-cabeça) e até da diversidade narrativa. Pra mim não importa nada disso: o autor conseguiu imprimir sua marca inconfundível, mesmo se apropriando de uma outra paisagem.
Uma frase não consegue sair da minha cabeça: “como dizer adeus a alguém que até então era imprescindível na sua vida?”
Roteiro sentimental: já estou com a trilha sonora do iPod. Mas o que dizer de um CD que traz Cat Power e Ry Cooder? Melhor é ouvir e sonhar!
 
 

Alice não mora mais aqui…

dezembro 17, 2007

 

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Em cartaz: A Casa de Alice (Brasil, 2007) 

 

Podia ser a sua, a minha, a de qualquer um. Mas a casa em questão é da manicure Alice (Carla Ribas, emocionante), carioca que mora em São Paulo com a mãe (Berta Zemel é, de fato e de direito, uma das maiores atrizes do Brasil), o marido cafajeste e três filhos. Claro que o cineasta Chico Teixeira se apóia num roteiro muito bem amarrado e numa direção de arte de tirar o chapéu (evoé Marcos Pedroso e Valdy Lopes Ferreira), mas o filme tem força narrativa por ser exatamente o que é: uma crônica contemporânea das relações humanas travadas entre pessoas comuns, que andam de ônibus, dirigem táxi, se prostituem, amam e traem igual a tantos na vida.

De invisíveis do cotidiano, cada personagem tem sua voz mais ou menos realçada ao longo da história. Há quem ache que a cegueira progressiva da avó carrega nas tintas da metáfora psicológica. Nas mãos e olhos de Berta Zemel, porém, é puro gancho para sensível interpretação. A Casa de Alice (2007) é um filme para se guardar na gaveta dos afetos escondidos. Dessa forma vai se misturar com sentimentos daninhos (e tão nossos) que muitas vezes não temos coragem de acordar.

Roteiro sentimental: os detalhes subterrâneos de algumas cenas que passam despercebidas pela maioria: o toque físico (e nunca explícito) entre os irmãos, o corpo em ebulição da mulher madura, o silêncio nada cúmplice daquela que tudo vê, mesmo perdendo a visão. 

A Hora da Estrela

outubro 16, 2007

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Em cartaz: Piaf, um Hino ao Amor (França, 2007)

Ela nasceu na França empobrecida, durante a Primeira Guerra Mundial. Viveu intensamente as agruras do submundo parisiense desde a infância (sem falar no período em que morou num bordel da Normandia e na trajetória mambembe com pai, artista de circo). Sua genialidade, porém, lançou seu nome e sua voz ao patamar do mito. Transcendência. É claro que a biografia de Edith Piaf só podia gerar um melodrama no melhor estilo hollywoodiano sem, contudo, perder o charme francês.

Todos comparam Piaf, um Hino ao Amor (La Môme, 2007) aos recentes Ray (2004) e Johnny e June (2005). O problema é que nesses a caricatura se sobrepôs aos artistas retratados. A Piaf de Marion Cotillard, no entanto, é humana. Existe para amar e para sofrer durante os 140 minutos de duração do filme com uma capacidade infinita de nos cativar (como a própria Piaf o fez ao interpretar de forma única suas canções). Ninguém lembra que se trata da mesma atriz que contracenou com Russell Crowe no meloso filme de Ridley Scott, A Good Year (2006). O espaço é curto para falar dos aspectos de La Môme que me convenceram (assim como aqueles que me irritaram). Vou ficar com um único (e positivo): a emoção que brota na gente em cada sorriso e em cada lágrima de sua atriz principal.

Roteiro sentimental: impossível não lembrar da cena (já candidata a melhor do ano) de transição entre o interior do apartamento e o palco. O pequeno Pardal atingido em pleno vôo, cai ferido diante da platéia. É quando o melodrama atinge seu objetivo e assegura a imortalidade do mito.

Em tempo: a França que sempre respirou Edith (a representação máxima de sua chanson populaire), está mergulhada numa verdadeira febre em torno de seu ídolo. Além do filme, inúmeras publicações oferecem extensos dossiês sobre sua vida e obra. A artista que atravessou duas guerras teve, em suas batalhas particulares, o papel crucial de representar a França de todas as vertentes, unindo o popular ao sofisticado, o luxo e a lama, provando ser verdadeiramente uma estrela. 

Açúcar e afeto

outubro 4, 2007

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Em Cartaz: Nunca é Tarde para Amar (EUA, 2007) 

O tema é delicado: quando se junta açúcar e afeto, dependendo da dose, o resultado pode ser “meloso” ou “gostoso”. A comédia romântica (detesto o termo, mas como é assim que costumam designar o gênero, lá vai) Nunca é Tarde para Amar (I Could Never Be Your Woman, 2007) fica na linha tênue entre os dois. A sempre bela Michelle Pfeiffer, no auge de seus 49 anos, faz uma mulher de 40. O excelente Paul Rudd (ok, ok, adjetivações desse tipo são sempre um perigo, mas não nesse caso), 38 anos na vida real, faz um comediante de 29.

Como em todo filme nessa linha, eles se apaixonam e a questão se coloca: duas pessoas de gerações diferentes podem se amar por mais de uma estação? Well, por experiência própria, digo que isso é algo bem complicado. É preciso que haja uma sintonia fina entre os envolvidos e mais: é preciso que haja honestidade. Aqui, em meio aos dramas da filha na pré-adolescência (às voltas com o primeiro amor) e aos devaneios egocêntricos do ex-marido (e de boa parte do resto do elenco, que compõe uma sitcom juvenil escrita por Rose, personagem de Pfeiffer), a loira parece encontrar o moço certo na hora certa.

Engraçado, o personagem de Rudd faz um geek na tal série de TV já citada. Ganha o público e vê sua carreira crescer vertiginosamente. Os “especialistas” (como sempre) torceram o nariz e já classificaram o filme de “moralista e impiedoso” com a indústria, mas que se apóia nos mesmo clichês que critica. Outros preferem ir “mais fundo” e dizem que a fita é medíocre. Prefiro ser mais fiel a mim (que não tenho receio algum de ser meloso) e dizer que me diverti muito durante os 97 minutos de puro simulacro do par-perfeito-entre-gerações-diferentes.

Roteiro sentimental: não deixem de reparar o ótimo desempenho da atriz mirim Saoirse Ronan, que faz a filha da protagonista. A loirinha tem charme pessoal e encanta com sua Izzie, que não deixa de ser o retrato-da-mãe-quando-jovem.

Longe do Paraíso

outubro 1, 2007

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Em Cartaz: Encontros ao Acaso (EUA, 2006)

Aí você vai ao cinema sozinho, num início de tarde fria e chuvosa, numa cidade cinza como São Paulo. Aí o cinema é um dos últimos remanescentes daqueles bem tradicionais, com piso e paredes acarpetados com cores berrantes e formas geométricas que lembram os anos 70. Uma luz azulada e uma música instrumental-brega de fundo compõem a cena, antes do filme começar.

Aí o filme começa. Trata-se da estréia como diretora da atriz Joey Lauren Adams (a Amy, de Procura-se Amy (1997), de Kevin Smith). Encontros ao Acaso (Come Early Morning, 2006) é uma daquelas histórias que bem poderiam recortar uma fase da sua vida. Sim, da minha. E a coisa da cumplicidade foi tamanha que me dei o direito de fazer algumas pesquisas: Joey Adams nasceu em janeiro de 1968; sua atriz principal, Ashley Judd (inspiradíssima) em abril de 1968; seu par no filme, o equilibrado Jeffrey Donovan em maio, também de 1968.

Eu? Eu sou de dezembro de 1968. E aí tudo se encaixou. É a minha geração se auto-descrevendo. Carregando nas tintas de um interior norte-americano arcaico e quase bizarro, nos porres homéricos (sim, vez-em-quando precisamos disso) e numa total inadequação em se entregar a um relacionamento saudável, que dure mais que uma noite de sexo anônimo e sem amarras. Pode não ter feito sentido para mais ninguém. Mas durante seus 97 minutos, o filme me tomou por inteiro. A relação conflituosa com o pai, com a fé, com o próprio destino. De repente me vi ali, naquele cinema enorme, quase vazio, chorando como um adulto que ainda é um menino. Mas certo de que o mundo não tem nada com isso.

Roteiro sentimental: impossível não se deixar envolver pelos personagens coadjuvantes, inclusive Bessie, a cadela sem dono que simboliza tanta coisa. Scott Wilson (o pai), Diane Ladd (Nana) e Tim Blake Nelson (o tio) estão reluzentes em suas quase-pontas. E o Arkansas natal da diretora, filmado cru, mas capaz de paisagens desoladoras e deslumbrantes ao mesmo tempo. 

Medo de ser feliz

setembro 26, 2007

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Em cartaz: As Leis de Família (Argentina, 2006)

Quais os códigos subterrâneos que regem a ordem secreta das famílias? As relações entre pais e filhos, marido e mulher, irmãos quase sempre têm leis que não precisam ser escritas ou declaradas mas, em algum momento, são questionadas e até desafiadas. O que se vê no novo filme do argentino Daniel Burman, As Leis de Família (Derecho de Familia, 2006), também responsável pelo (para mim) nostálgico O Abraço Partido (2004), é o filho advogado de um pai advogado que se torna pai também e promete para ele mesmo que dessa vez vai ser diferente. 

O jovem é interpretado pelo ator Daniel Hendler (onipresente nos filmes de Burman). Ele tem um medo impressionante de ser feliz. Questiona a relação com o pai, com o filho, com a bela mulher (inicialmente sua aluna), com ele mesmo, com o mundo. Mas no fundo o que está em foco é sua busca pessoal (“quem sou e quem é você nessa história?”). E aí vemos temas recorrentes do diretor: o judaísmo, a sociedade latina (notadamente argentina), os pequenos gestos capazes de explicar o mundo. Não se trata de um filme “obra-prima” como querem tantos autores jovens do cinema atual. É a pequena pérola de uma jóia familiar que, se não explica muita coisa, nos faz questionar um bocado.

Roteiro Sentimental: o pequeno Gastón (Eloy Burman, filho do diretor) rouba a cena sempre que aparece, dá vontade de ter um filho igual. Outro ponto forte é a fragilidade existencial transmitida por Hendler. Seu olhar de desamparo traduz tudo: omissão, aproximação, distanciamento, quase-amor.

Como nossos pais

setembro 18, 2007

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Em cartaz: Person (Brasil, 2007)

Eu perdi meu pai muito cedo. As imagens que tenho da minha vida com ele são desbotadas. Tem as cores dos anos 70, distantes. Por isso o documentário Person (2007), sobre o cineasta Luís Sérgio dirigido por sua filha Marina, me despertou uma estranha sensação de cumplicidade. Partindo de farto material de arquivo (lindas imagens da família em Super 8, fotos, entrevistas da época, etc.), depoimentos e principalmente das reminiscências pessoais, ela vai nos revelando mais e mais desse brilhante artista que nos deixou cedo, embora com tempo de marcar seu nome na história do cinema brasileiro com obras-primas como São Paulo S.A. (1965) e O Caso dos Irmãos Naves (1967). Mas quero voltar à Marina. Antes de ver o documentário, fiquei com medo do tom íntimo e pessoal, do formato “diário” que sempre desponta na narração em primeira pessoa. Nada disso é problema. Ao contrário, quando ela está em cena com a mãe (linda) e a irmã (linda também), o filme se torna quase epifânico. Seus olhos brilham e isso faz com que o público queira compartilhar aquelas memórias também. Desperta a vontade de ter conhecido Luís Sérgio Person e mais: conhecer o que ele teria produzido se tivesse tido mais tempo.

Roteiro Sentimental: a trilha de Jorge Benjor (destaque para Domingas) cola em nossa cabeça assim como a luz no fim do túnel (literal) cola em nossas retinas. Mas o destaque mesmo fica para a coragem de descrever o pai morto, revelando um homem e um artista que o mundo precisa conhecer mais e melhor.

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Em cartaz: The Bubble (Israel, 2006)

O perigo de um filme como The Bubble (Ha-Buah, 2006) é cair na armadilha das simplificações. No caso, o viés panfletário poderia sobressair nos inúmeros personagens gays e simpatizantes (incluindo os protagonistas) retratados na história, além da conotação política, que claramente expõe um ponto de vista liberal em relação aos conflitos entre árabes e israelenses. Mas o que se vê no filme é lirismo sem pieguice (alguns poucos exageros não chegam a comprometer o tom dominante) e consciência humanitária sem juízos de valor ou lições de moral.

Eytan Fox (autor do não menos polêmico Yossi & Jagger, de 2002) parte de um conflito local para falar de algo que acontece tanto nas fronteiras entre Israel e os territórios ocupados quanto nas favelas do Rio de Janeiro. O constrangimento de muitos, a revolta de outros e ainda a perversão de alguns. Na luta pessoal pela assimilação do desejo, o diretor vai seduzindo o público com o clima gay-festivo de Tel Aviv até a dissolução da aludida “bolha”. O fato do título não ter sido traduzido no Brasil deixou (pelo menos em mim)  a impressão de que é necessário reconhecer o estrangeiro que há em nós para que os limites ganhem outros significados.  

Roteiro Sentimental: impossível não se emocionar com a versão de Ivri Lider para The Man I Love, de George e Ira Gershwin, que ouvi tempos atrás na interpretação inesquecível de Ella Fitzgerald. Aliás,  a trilha tem ainda Bebel Gilberto criando climas acertados. Códigos perfeitos para aproximar mundos aparentemente distantes.

Dança da Solidão

setembro 10, 2007

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Em cartaz: Medos Privados em Lugares Públicos (França, 2006)

O declínio sempre me fascinou. Me sinto um tanto retrô no gosto por coisas antigas, gastas, sejam elas do século XIX ou da década de 60,70 do XX. Quando assisti a Medos Privados em Lugares Públicos (Coeurs, 2006) me vi mergulhado numa atmosfera decadente (entendam, no melhor sentido que esse termo tem pra mim). Os seis personagens em busca do amor já têm mais de 30 anos (em alguns casos, bem mais). Os cenários (além da neve constante que lembra antigos cartões de natal) evocam algum tipo de relação com o passado, sem falar no vermelho-pesado-dominante do bar do hotel (existe expressão mais vintage que “bar do hotel”?) despertando o desejo por um drink naquele balcão. Tô falando em personagens e cenários porque o filme originalmente é uma peça de teatro (e a excelência do texto de Alan Ayckbourn deixa isso bem claro), mas trabalhada com tamanha maestria que se transforma em obra imagética por excelência.

Alain Resnais não é um mestre apenas por tudo que já legou à história do cinema. É mestre porque, com mais de 80 anos, ainda consegue se divertir fazendo cinema (a câmera explorando espaços com tanta desenvoltura que empolga). Consegue transformar retratos tristes em singelos fotogramas de nós mesmos, sempre em busca de uma história de amor real. Nem que elas durem o tempo da projeção de um filme. 

Roteiro sentimental: não dá para esquecer os personagens Charlotte (Sabine Azèma -fantástica) e Lionel (Pierre Arditi) sob a neve que invade metaforicamente o apartamento. Sentimos frio e calor ao mesmo tempo, como sempre acontece ao tentarmos resolver pendências com o tempo, com a memória, com a vida imaginada.

Memória possível

setembro 6, 2007

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Em cartaz: Santiago (Brasil, 2007)

A imagem acima, claro, não é do personagem-título do novo documentário de João Moreira Salles, Santiago (2007). É a foto do próprio diretor que, de tanto se esconder, é quem mais acaba aparecendo. Um revelação bem peculiar, já que não se trata a meu ver de nenhuma “exposição gratuita” ou “ato político” como querem alguns. Ele “estuda” as tais inconfidências: do narrador em primeira pessoa que é puro simulacro ao tom despudorado de vilão que imprimiu à própria atuação ao longo do filme. E isso não prejudica em nada a sua maestria. Não vou repetir aqui os clichês já ditos e repetidos sobre o longa: da comparação à Proust e suas madeleines, Alice e seus espelhos, passando por potenciais implicações psicanalíticas e investigações sobre o “fazer documentário” até à desilusão pelo ofício (aventada pelo próprio João). Para mim é puro afeto. É um dos filmes mais corajosos dos últimos tempos, justamente por suscitar e alimentar tantas especulações. A minha se baseia numa única sentença, parafraseando Gilberto Gil: muitas vezes temos que “morrer pra germinar”.

Roteiro Sentimental: impossível não se encantar com os vácuos (explosões), que se expressam por telas escuras ao longo da narrativa, me lembrando rubricas de Clarice, em A Hora da Estrela. Outro detalhe de arrepiar: como um último vestígio do desnudamento, o diretor relata a influência, à época, do cinema de planos distanciados (e belos) praticados por Yasujiro Ozu. Foi nesse momento que me encontrei definitivamente com o mordomo, figura ímpar com todos os significados que a expressão implica.