Memória possível
Setembro 6, 2007
Em cartaz: Santiago (Brasil, 2007)
A imagem acima, claro, não é do personagem-título do novo documentário de João Moreira Salles, Santiago (2007). É a foto do próprio diretor que, de tanto se esconder, é quem mais acaba aparecendo. Um revelação bem peculiar, já que não se trata a meu ver de nenhuma “exposição gratuita” ou “ato político” como querem alguns. Ele “estuda” as tais inconfidências: do narrador em primeira pessoa que é puro simulacro ao tom despudorado de vilão que imprimiu à própria atuação ao longo do filme. E isso não prejudica em nada a sua maestria. Não vou repetir aqui os clichês já ditos e repetidos sobre o longa: da comparação à Proust e suas madeleines, Alice e seus espelhos, passando por potenciais implicações psicanalíticas e investigações sobre o “fazer documentário” até à desilusão pelo ofício (aventada pelo próprio João). Para mim é puro afeto. É um dos filmes mais corajosos dos últimos tempos, justamente por suscitar e alimentar tantas especulações. A minha se baseia numa única sentença, parafraseando Gilberto Gil: muitas vezes temos que ”morrer pra germinar”.
Roteiro Sentimental: impossível não se encantar com os vácuos (explosões), que se expressam por telas escuras ao longo da narrativa, me lembrando rubricas de Clarice, em A Hora da Estrela. Outro detalhe de arrepiar: como um último vestígio do desnudamento, o diretor relata a influência, à época, do cinema de planos distanciados (e belos) praticados por Yasujiro Ozu. Foi nesse momento que me encontrei definitivamente com o mordomo, figura ímpar com todos os significados que a expressão implica.
É o que eu penso. Fazer um filme como este foi, no mínimo, corajoso.
Fiquei feliz pelo blogue novo.
belo e corajoso. mas sabes que sou uma mulher de explosões e a figura do “vilão” me marcou muito. amei o filme, mas ainda não consegui perdoar o joão moreira salles
muitos beijos!
Adorei a imagem principal do blog. Noites de Cabíria é um dos meus filmes favoritos!
Voltarei aqui sempre!
‘A vida é uma decepção.’ E é preciso muita entrega para se permitir aquele ‘Sim’ sorridente.
É o filme mais corajoso dos últimos tempos, não tenha dúvida.
E, sobre comentário lido aqui, se João quisesse o perdão de alguém, ele não teria feito esse filme.